Jorge Cadima
Mudar as regras
do jogo para preservar o jogo
A eleição de
Trump foi expressão da profunda crise em que está mergulhada a maior das potências
imperialistas. Mas é também um factor do seu agravamento, facto cabalmente
demonstrado pelos dois primeiros meses do seu mandato. O Tornar de Novo
Grande a América (MAGA) trumpista não é irracional. É apenas reaccionário.
Assenta na constatação real de que é insustentável o modelo de domínio
imperialista e de financeirização parasitária em vigor nas últimas
décadas, e na sua decadência face à ascensão da China e outros países. Perante
o declínio, Trump propõe-se reafirmar o poderio mundial dos EUA. Pela
força bruta, como é da sua natureza histórica. Quer mudar as «regras do
jogo» para preservar «o jogo», ou seja, a hegemonia mundial do gigante imperialista.
Se for preciso devorar os vassalos europeus, assim seja. Já nos anos 80 e
90 os EUA ceifaram o «aliado» Japão, para travar a sua forte ascensão económica.
O que distingue
Trump de Biden não é a afirmação da hegemonia dos EUA, mas apenas os métodos.
O que distingue Trump dos seus vassalos europeus não é a essência, mas
apenas o assumir em público a relação de vassalagem que sempre existiu.
Vassalagem que teve o seu ponto mais baixo no vergonhoso silêncio das
classes dirigentes «europeias» perante o maior acto de sabotagem contra
os interesses económicos da UE, perpetrado pelos EUA/Biden – a destruição
do gasoduto NordStream2. Tal como os três macaquinhos, não vêem, não
falam, não ouvem.
Os dirigentes
europeus participaram em décadas de guerras, agressões e cercos sob o
manto dos EUA – Jugoslávia, Afeganistão, Líbia, Síria, Venezuela, Rússia,
entre outros. Se alguns espernearam com o Iraque, voltaram logo ao redil,
elegendo Durão Barroso, o anfitrião da vergonhosa Cimeira das Lajes,
para Presidente da Comissão Europeia. De então para cá a vassalagem foi
total. Hoje mostram-se indignados. Porque são alvo daquilo que fizeram aos
outros – aos que não aceitavam ser vassalos.
A natureza
de Trump está à vista no retomar do genocídio na Palestina – um genocídio
que Biden, UE e RU sustentaram durante 15 meses. Está à vista nos brutais
ataques ao Iémen – copiando Biden e amigos. Está à vista nas ameaças de
atacar o Irão – que também vêm de trás. Se Trump parece querer apaziguar a
guerra na Ucrânia, é apenas porque reconhece que essa guerra – que está a ser
perdida, apesar do investimento em força – lhe impede de se virar para o
seu alvo primeiro – a China. Basta ler o que diz o Ministro da Defesa dos
EUA, Hegseth. A ira da UE contra Trump nada tem a ver com «valores» ou «democracia
contra autoritarismo». Dormiram na mesma cama durante décadas. Só que,
para um poder engordar, os outros têm de ir dormir para o chão.
Quisessem os
dirigentes da UE e haveria uma alternativa pacífica e independente
para o beco em que se meteram. Bastava aceitarem relações de igualdade
com os restantes países, deixarem de ter a psicose que ainda são os amos coloniais
do mundo. Poderiam aproveitar o crescimento dos países dos BRICS para
também crescerem. Mas isso seria como pedir ao lobo que deixe de comer ovelhas.
Presos entre o seu passado colonialista e imperialista e a sua vassalagem
ao amo norte-americano, as podres classes dirigentes europeias pensam da
mesma maneira que Trump: recorrer à força bruta para tentar manter a sua existência
parasitária e inútil. Cabe aos povos mandá-los todos pastar.